A proposta do prefeito Zohran Mamdani de inaugurar cinco supermercados estatais em Nova York, financiados com dinheiro público e praticando preços 30% abaixo do mercado, abriu uma intensa discussão sobre os limites da intervenção governamental nos Estados Unidos. O discurso oficial apresenta a medida como uma solução humanitária para combater "desertos alimentares" e aliviar o custo de vida nas regiões vulneráveis. No entanto, a ideia de que o governo pode atuar como comerciante sem quebrar as finanças ou desabastecer as prateleiras colide diretamente com a realidade operacional e com a história econômica. A mecânica desse setor é implacável: supermercados operam com margens de lucro mínimas (entre 1% e 3%) e dependem de redes logísticas ultraeficientes e gestão rígida de perdas. Quando o Estado abre uma loja subsidiada, os pequenos comerciantes locais não conseguem competir contra impostos usados para bancar seu concorrente e fecham as portas. O resultado é um paradoxo trágico: para corrigir um problema de acesso, o governo destrói a concorrência privada, torna-se o único fornecedor e agrava drasticamente a escassez.
Em vez de meras previsões, o histórico real dos
Estados Unidos demonstra que o modelo de mercado municipal invariavelmente
fracassa devido à falta de incentivo à eficiência e aos gargalos orçamentários.
Em Baldwin, Flórida, a prefeitura abriu uma mercearia pública que, mesmo sem
pagar aluguel nem impostos, acumulou mais de US$ 170 mil em prejuízos até
fechar permanentemente. Em Kansas City, a cidade investiu mais de US$ 17
milhões no Sun Fresh Market; sem o rigor do mercado livre, o local
acumulou prateleiras vazias, carnes vencidas e aportes emergenciais até
encerrar as atividades em 2025. Já em Chicago, após anunciar um plano
semelhante em 2023, a gestão municipal analisou os estudos de viabilidade
econômica, observou esses desastres vizinhos e desistiu da ideia antes do
colapso, decidindo apoiar o comércio privado local ao reconhecer a ineficiência
estrutural do Estado na gestão do varejo.
Quando o poder público assume a operação de
supermercados e a oferta privada colapsa, o desabastecimento vira a regra e o
governo responde da única forma que domina: aplicando limites de compra
("2 por cliente") e racionamento. A rotina da população passa a ser
marcada por corridas matinais, estocagem desesperada e filas intermináveis para
obter itens básicos. Para conter a sangria orçamentária dos subsídios
crescentes, a gestão pública deixa a qualidade despencar, oferecendo vegetais
murchos, cortes inferiores e opções escassas. Esse cenário é um eco exato do
cotidiano na União Soviética e na Europa Oriental, onde as pessoas enfrentavam
filas diárias separadas para obter pão, leite e carnes escassas (limitadas a
duas vezes por semana), precisando caminhar de ponto em ponto para carregar os
itens mais leves primeiro. Em locais como a Checoslováquia, a escassez era tão
crônica que mercadorias básicas ou "de luxo", como um simples
chocolate importado, exigiam vouchers especiais obtidos exclusivamente com
moedas estrangeiras.
A história econômica registra com clareza esse
mesmo padrão de colapso sempre que se tenta substituir o livre mercado, a
propriedade privada e o sinal de preços pela canetada burocrática. Desde a Roma
Antiga, quando o Édito de Diocleciano (301 d.C.) congelou preços sob pena de
morte e paralisou o comércio formal, até a Venezuela contemporânea, onde a Lei
de Preços Justos destruiu a produção nacional e gerou racionamento crônico e
hiperinflação, o resultado do tabelamento é invariavelmente o desabastecimento.
O Brasil vivenciou isso no Plano Cruzado (1986), quando o congelamento de
preços fez a carne e o leite desaparecerem das prateleiras, exigindo fiscais do
governo e importações emergenciais. Da mesma forma, tentativas de planejamento
centralizado e estatização total, como o órgão Gosplan na União
Soviética, que tentava precificar milhões de itens, e o trágico Grande Salto
Adiante (1958–1962) na China, provaram que burocratas são incapazes de
prever a demanda real, destruindo os incentivos individuais e gerando escassez
sistêmica.
Diante desse risco histórico e operacional,
surge a dúvida sobre como o governo federal americano permite que a prefeitura
de Nova York avance com uma medida tão controversa. A explicação está na
arquitetura constitucional dos Estados Unidos e no princípio da Décima Emenda,
que garante autonomia administrativa, orçamentária e de desenvolvimento urbano
a estados e municípios. A menos que haja uma violação direta de preceito
constitucional ou de lei federal, o poder central em Washington não possui
prerrogativa jurídica para vetar decisões de investimento público aprovadas
pelo conselho municipal (City Council). No plano econômico, a
controvérsia contrapõe o pragmatismo fiscal, que alerta para a destruição de
empregos privados e o surgimento de um buraco orçamentário perpétuo para o
contribuinte, e os defensores da medida, que sustentam que a iniciativa
funcionaria apenas como uma rede de proteção pontual em áreas desatendidas pela
iniciativa privada, operando em imóveis públicos com gestão contratada.
As evidências empíricas e o registro histórico
mostram que a tentativa de controlar o comércio via intervenção estatal direta
ignora as leis fundamentais da oferta e da demanda. Quando o Estado tenta atuar
como comerciante e tabelar preços abaixo do custo real de mercado, a
consequência inevitável é a destruição da concorrência local, o rombo nas
contas públicas e a degradação dos serviços prestados à população. O plano das
cinco lojas estatais em Nova York promete alimentos acessíveis, mas a realidade
operacional da economia e os experimentos do passado indicam que a conta
chegará duplicada ao contribuinte: primeiro na forma de impostos mais altos
para cobrir deficits crescentes e, depois, em prateleiras vazias, racionamento
e na perda da liberdade de escolha no mercado.

